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4 de novembro de 2013
4 de outubro de 2013
Escritor mexicano Alejandro Reyes lança o livro Vozes dos Porões na Universidade das Quebradas
Publicado no site da Universidade das Quebradas
Alejandro Reyes esteve ontem na Universidade das Quebradas para
apresentar seu livro e falar sobre literatura e política. Fruto de uma
tese de doutorado na Universidade de Berkeley na Califórnia, o
trabalho, explica o escritor, tem “intenção de contribuir para a
construção de alternativas neste momento de crise global”.
Ele contou brevemente que a literatura que foi chamada de marginal, foi escrita na década de 1980, por autores da classe média que se colocaram fora do cânone, produzindo livros artesanais. A partir de 2000, uma literatura muito forte surge na periferia de São Paulo, em regiões de favela e prisões. Esta literatura ocupa os bares com saraus como o da Cooperifa e Sarau do Binho. O escritor revelou que um marco neste movimento aconteceu quando o escritor Ferrez organizou três volumes da revista Caros Amigos sobre esta Literatura Marginal, apresentando uma série de textos inclusive do Comandante Marcos ligado ao movimento Zapatista.
Mexicano que morou na Bahia, Alejandro se define como um escritor ativista. Ele acredita que as palavras têm mais poder que as balas e afirmou: A literatura precisa fazer um questionamento ético não apenas estético.
Alejandro nos contou que 95% do crescimento populacional no mundo se dá em áreas periféricas onde as pessoas vivem de subemprego e sonham com o tempo em que eram explorados e tinham salario, ele disse: Vivemos em uma panela de pressão!
O autor afirma que esta panela só não explode por causa das Ongs e programas como o Bolsa Família, que funcionam como band aids e porque a polícia está sempre pronta para dar porrada na cabeça daqueles que protestam.
Ele também comentou sobre as reflexões do escritor paulistano Allan da Rosa, que percebeu o papel limitado na capacidade de transformação social dos saraus. Allan está atualmente organizando cursos baseados na reflexão sobre a cultura afrobrasileira. Falou ainda sobre o movimento revolucionário Zapatista que há vinte anos experimenta a construção de uma autonomia no sul do México, constituindo escolas, sistemas de saúde e de justiça independentes do estado.
E atenção: quem quiser trocar ideias com Alejandro Reys, ele estará participando, hoje dia 11 de setembro, do circulo de conversas Resistência e/em Movimento, na Rua Alcino Guanabara (ocupação Manuel Congo) Cinelândia, ás 19 horas, e amanhã dia 12 de setembro, no Sarau Apafunk.
A literatura produzida atualmente nas periferias brasileiras é o tema do novo livro do escritor mexicano Alejandro Reyes, Vozes do Porão: Literatura Periférica/Marginal no Brasil que faz parte da coleção Tramas Urbanas da Editora Aeroplano.
Ele contou brevemente que a literatura que foi chamada de marginal, foi escrita na década de 1980, por autores da classe média que se colocaram fora do cânone, produzindo livros artesanais. A partir de 2000, uma literatura muito forte surge na periferia de São Paulo, em regiões de favela e prisões. Esta literatura ocupa os bares com saraus como o da Cooperifa e Sarau do Binho. O escritor revelou que um marco neste movimento aconteceu quando o escritor Ferrez organizou três volumes da revista Caros Amigos sobre esta Literatura Marginal, apresentando uma série de textos inclusive do Comandante Marcos ligado ao movimento Zapatista.
Mexicano que morou na Bahia, Alejandro se define como um escritor ativista. Ele acredita que as palavras têm mais poder que as balas e afirmou: A literatura precisa fazer um questionamento ético não apenas estético.
Alejandro nos contou que 95% do crescimento populacional no mundo se dá em áreas periféricas onde as pessoas vivem de subemprego e sonham com o tempo em que eram explorados e tinham salario, ele disse: Vivemos em uma panela de pressão!
O autor afirma que esta panela só não explode por causa das Ongs e programas como o Bolsa Família, que funcionam como band aids e porque a polícia está sempre pronta para dar porrada na cabeça daqueles que protestam.
Ele também comentou sobre as reflexões do escritor paulistano Allan da Rosa, que percebeu o papel limitado na capacidade de transformação social dos saraus. Allan está atualmente organizando cursos baseados na reflexão sobre a cultura afrobrasileira. Falou ainda sobre o movimento revolucionário Zapatista que há vinte anos experimenta a construção de uma autonomia no sul do México, constituindo escolas, sistemas de saúde e de justiça independentes do estado.
E atenção: quem quiser trocar ideias com Alejandro Reys, ele estará participando, hoje dia 11 de setembro, do circulo de conversas Resistência e/em Movimento, na Rua Alcino Guanabara (ocupação Manuel Congo) Cinelândia, ás 19 horas, e amanhã dia 12 de setembro, no Sarau Apafunk.
18 de setembro de 2013
Literatura dos porões da sociedade marca território
Publicado por Periferia em Movimento em 18/09/201
Por Andressa Vilela
Descontraído e informal. Esse foi o
clima do evento que aconteceu na tarde de quinta-feira (29), no Centro
Cultural São Paulo. Estavam presentes Alejandro Reyes, autor mexicano de
“Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal no Brasil”, e Allan da Rosa, que escreveu “Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem”.
Ambos os títulos foram publicados pela Editora Aeroplano, dentro da
Coleção Tramas Urbanas, coordenada pela professora Heloisa Buarque de
Hollanda, que mediou a mesa no início do encontro.Heloisa abriu o debate pontuando que as duas obras são estudos profundos. Sobre Vozes dos Porões, a professora afirma que se trata do livro mais completo sobre literatura marginal, no qual o autor se debruçou sobre toda a história do tema, transmitindo uma identificação profunda para os leitores.
Pedagoginga, por sua vez, questiona o fazer educativo e apresenta uma nova proposta pedagógica, que envolve autonomia dos alunos e compromisso com a cultura afro-brasileira. De acordo com o autor, “é o sonho de alimentar o movimento de educação popular nas periferias de São Paulo”.
Segundo Reyes, o nome de seu livro surgiu a partir de uma experiência que vivenciou no México, onde conheceu o coletivo O Porão dos Esquecidos, que produz uma literatura semelhante à marginal brasileira, ou seja, que não tem grande espaço para divulgação. Juntos, pensaram que a melhor maneira de nomear tal produção seria “literatura dos porões”, dos porões da sociedade. “É um trocadilho sobre o que acontece no México e o que acontece aqui”, explica o autor.
A seguir, o foco da conversa tornou-se o preconceito linguístico que está enraizado na sociedade brasileira. Conforme os debatedores, a literatura periférica trata de questões extremamente locais, reivindicando, assim, uma linguagem muito específica, que vai de encontro ao que a comunidade acadêmica considera culto e correto. Por isso é urgente que se criem pontes para conectar os dois extremos linguísticos da sociedade: o erudito e o popular.
Para Alejandro, a produção literária marginal surge como uma dessas pontes, que deve quebrar a cegueira e a surdez de instituições conservadoras que ainda resistem em considerar o discurso periférico como válido. Segundo Allan, a produção de algo diferente do que já existe está na necessidade de marcar um território. Entretanto, ele aponta que a padronização também é um risco que a produção da periferia corre, mas que “a quebrada é de um monte de jeito e tem um monte de tema possível”.
Sobre o papel da literatura na sociedade, Reyes acredita que ela tem a capacidade de quebrar conceitos, de ir o mais profundo possível no questionamento da existência humana. “A literatura tem uma função pedagógica no sentindo de nos fazer enxergar coisas que de outro modo não enxergaríamos”, diz o autor. Ele explica que a literatura periférica não surge com o sentido de apontar respostas, mas sim de fazer o leitor identificar-se com o que lê. Trata-se da “sanha de fazer o leitor aparecer”, que, para Allan, é uma luta diária.
O último tema abordado no encontro foi o perfil da escrita literária dos mexicanos que vivem nos Estados Unidos. Segundo Reyes, a fronteira entre os dois países não existe no imaginário e na realidade humana dos imigrantes e isso é refletido na literatura. “Tem um hibridismo com a linguagem… Já que território tem a ver com a experiência e sensibilidade humana e nada a ver com fronteiras, mesmo que existam fisicamente”, pontua. O outro lado do assunto são os traumas que os imigrantes sofrem ao tentar entrar ilegalmente no país norte americano. Ambos os autores afirmam que conheceram de perto histórias difíceis, que apenas reforçam o apego ao país de origem.
11 de setembro de 2013
Alejandro Reyes no Sarau da Brasa
ALEJANDRO REYES NO SARAU DA BRASA
Salve
No último
dia 24 de agosto recebemos em nosso terreiro, o companheiro Alejandro
Reyes, para o lançamento de seu livro “Vozes dos Porões”.
Literatura
periférica, estética, linguagem, zapatismo, espaços de autonomia no
México, movimentos de arte e espaços de autonomia em São Paulo, foram
algumas encruzilhadas que deram movimento aos nossos pensamentos.
Momento de
exercício, experimentação e construção de mais um momento de respiro
para nossas reflexões coletiva, dentro das periferias de São Paulo.
Agradecemos a Alejandro pela contribuição e a tod@s que deram movimento na roda.
10 de setembro de 2013
Chá de Conversa e Som - Feira de Santana
Mais
um “Chá de Conversa e Som” aconteceu no Museu de Arte Contemporânea
Raimundo Oliveira (Mac) e, desta vez, em edição especial. A partir das
19h de sexta-feira (6), a discussão girou em torno do tema “Cultura,
resistência e movimento autônomos: Literatura
Marginal-Periférica-Divergente, Zapatismo e mídia alternativa”.
Enquanto
saboreavam um gostoso chá de frutas com torradas e biscoitos, o
bate-papo se deu com o mexicano Alejandro Reyes e foi mediado por Nelson
Maca e pelo historiador feirense Bel Pires. Como de costume, o
No
entanto, Alejandro e Nelson, ambos professores universitários,
escritores e ativistas sociais, que residem em Salvador, enfrentaram um
engarrafamento de 3h, gerando um grande atraso na programação, o que fez
com que algumas pessoas não esperassem e fossem embora antes de sua
chegada ao Mac, situado à Rua Geminiano Costa, 255, Centro de em Feira
de Santana.
Na ocasião, foi lançado o livro “Vozes dos Porões” de Alejandro Reyes. Confiram mais fotos abaixo.
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9 de setembro de 2013
6 de setembro de 2013
Quando certa literatura deixa as margens
Lançamento dos livros “Vozes dos Porões” e “Pedagoginga” simboliza a concretização, valorização e o aprofundamento de obras conhecidas — ainda — por poucos, fora das periferias
Por Andressa Vilela
Em tarde de quinta-feira (29), no Centro Cultural São Paulo, descontraída e informal, Alejandro Reyes, autor mexicano, lançava sua obra “Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal no Brasil” ao lado de Allan da Rosa, que escreveu “Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem”. Ambos os títulos foram publicados pela Editora Aeroplano, dentro da Coleção Tramas Urbanas, coordenada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda, que mediou a mesa no início do encontro.
Para ela, ambas “estudos profundos”. Vozes dos Porões, segundo ela, o livro mais completo sobre literatura marginal, no qual o autor se debruçou sobre toda a história do tema, transmitindo uma identificação profunda para os leitores. Pedagoginga, por sua vez, questiona o fazer educativo e apresenta uma nova proposta pedagógica, que envolve autonomia dos alunos e compromisso com a cultura afro-brasileira. De acordo com o autor, “é o sonho de alimentar o movimento de educação popular nas periferias de São Paulo”.
Ainda que original de outro país, Reyes diz ser semelhante o que acontece lá e cá, quanto à literatura marginal. Segundo ele, o nome do livro surgiu por causa de vivência em coletivo chamado “O Porão dos Esquecidos”. Juntos, pensaram que a melhor maneira de nomear tal produção seria “literatura dos porões”, dos porões da sociedade. “É um trocadilho sobre o que acontece no México e o que acontece aqui”, explica o autor.
As diferenças e semelhanças foram ingredientes para uma rica troca sobre a arte das letras do povo. Primeiro, o assunto foi o preconceito linguístico, enraizado na sociedade brasileira. Conforme os debatedores, a literatura periférica trata de questões extremamente locais, reivindicando, assim, uma linguagem muito específica, que vai de encontro ao que a comunidade acadêmica considera culto e correto. Por isso é urgente que se criem pontes para conectar os dois extremos linguísticos da sociedade: o erudito e o popular.
Para Alejandro, a produção literária marginal surge como uma dessas pontes, que deve quebrar a cegueira e a surdez de instituições conservadoras que ainda resistem em considerar o discurso periférico como válido. Segundo Allan, a produção de algo diferente do que já existe está na necessidade de marcar um território. Entretanto, ele aponta que a padronização também é um risco que a produção da periferia corre, mas que “a quebrada é de um monte de jeito e tem um monte de tema possível”.
Sobre o papel da literatura na sociedade, Reyes acredita que ela tem a capacidade de quebrar conceitos, de ir o mais profundo possível no questionamento da existência humana. “A literatura tem uma função pedagógica no sentindo de nos fazer enxergar coisas que de outro modo não enxergaríamos”, diz o autor. Ele explica que a literatura periférica não surge com o sentido de apontar respostas, mas sim de fazer o leitor identificar-se com o que lê. Trata-se da “sanha de fazer o leitor aparecer”, que, para Allan, é uma luta diária.
Num caso específico da criação literária de mexicanos que vivem nos Estados Unidos, por exemplo, a fronteira entre os dois países não existe no imaginário e na realidade humana dos imigrantes e isso é refletido na literatura, conta Reyes. “Tem um hibridismo com a linguagem… Já que território tem a ver com a experiência e sensibilidade humana e nada a ver com fronteiras, mesmo que existam fisicamente”, pontua. O outro lado do assunto são os traumas que os imigrantes sofrem ao tentar entrar ilegalmente no país norte americano. Ambos os autores afirmam que conheceram de perto histórias difíceis, que apenas reforçam o apego ao país de origem.
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Para ler a seleção Outras Palavras da Cobertura Colaborativa Estéticas das Periferias, clique aqui
Para ler todos os textos, clique aqui
2 de setembro de 2013
Sarau Bem Black convida a série de eventos em Salvador, Bahia, com Vozes dos Porões
Escritor mexicano Alejandro Reyes lança
o livro Vozes do Porão no Sarau Bem Black
o livro Vozes do Porão no Sarau Bem Black
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. Evento acontece quarta-feira (04/08) no Sankofa African Bar e terá bate-papo, rodada poética e pocket-show com o rapper brasiliense GOG
. Evento acontece quarta-feira (04/08) no Sankofa African Bar e terá bate-papo, rodada poética e pocket-show com o rapper brasiliense GOG
A literatura produzida atualmente nas periferias brasileiras é o tema do novo livro do escritor mexicano Alejandro Reyes, Vozes do Porão: Literatura Periférica/Marginal no Brasil (Editora
Aeroplano), que o autor lança no país. Depois de passar pelo Rio Grande
do Sul e São Paulo, Alejandro chega a Salvador esta semana para uma
série de atividades realizadas em parceria com o Coletivo Blackitude –
Vozes Negras da Bahia.
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O
ponto de partida é o Sarau Bem Black desta quarta (04/08), evento já
marcante do calendário da cidade, que acontece semanalmente no Sankofa
African Bar, no Pelourinho. Apresentado por Nelson Maca, Álvaro Réu e
Mil Santos, participação das poetas juvenis Lucinha Black Power e Luiza
Gata e discotecagem do DJ Joe – que esta semana toca raps do GOG. O
Sarau, que começa às 19h30, conta com bate-papo, que terá as
participações especiais do rapper brasiliense GOG e do poeta paulista
Berimba de Jesus. No final da noitada poética, GOG fará um pocket-show.
Esta é a segunda vez que o Sarau Bem Black tem o prazer de receber Alejandro Reyes. Foi no evento que ele lançou, em 2011, seu premiado romance A Rainha do Cine Roma (Leya), que fala sobre meninos de rua e cuja história se passa em Salvador, onde ele morou. Da ficção para o ensaio, Alejandro estudou com atenção a agitação literária que sacode as periferias das grandes cidades brasileiras, com foco em São Paulo.
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Com
uma obra também voltada para a marginalidade, ele faz uma análise
literária e política deste movimento, alimentada pelas experiências do
movimento zapatista e de outros movimentos latino-americanos. Fruto de
uma tese de doutorado na Universidade
da Califórnia, o trabalho, explica o escritor, tem “ intenção de
contribuir para pensarmos juntos — escritores, ativistas, sonhadores das
perifas múltiplas do nosso mundo — como construir alternativas neste
momento de crise global”..
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Na quinta (05/09), Alejandro se encontra com os estudantes da Universidade Católica, no campus da Lapa (9h) e da UFBA, no Auditório I do PAF 5 (19h); no dia seguinte, segue para o MAC/Feira de Santana, onde é convidado do evento Chá de Conversa e Som / Cultura , Resistência e Movimentos Autônomos; e no domingo (07/09), encerra sua programação no Museu Street de Salvador – MUSAS, na Gamboa de Baixo. Em todos os encontros, o autor autografa Vozes do Porão e fala da literatura marginal, periférica e divergente e temas relacionados como zapatismo, mídia independente, autonomia artística e política.
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Na quinta (05/09), Alejandro se encontra com os estudantes da Universidade Católica, no campus da Lapa (9h) e da UFBA, no Auditório I do PAF 5 (19h); no dia seguinte, segue para o MAC/Feira de Santana, onde é convidado do evento Chá de Conversa e Som / Cultura , Resistência e Movimentos Autônomos; e no domingo (07/09), encerra sua programação no Museu Street de Salvador – MUSAS, na Gamboa de Baixo. Em todos os encontros, o autor autografa Vozes do Porão e fala da literatura marginal, periférica e divergente e temas relacionados como zapatismo, mídia independente, autonomia artística e política.
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Autor - Alejandro Reyes nasceu na cidade do México, é escritor, jornalista e tradutor. Viveu nos Estados Unidos, na França e nove anos no Brasil, inclusive em Salvador. É mestre em Estudos Latino-Americanos e doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade da Califórnia em Berkeley. É ativista e membro do coletivo de mídia alternativa Rádio Zapatista. É autor de Vidas de Rua, Contos Mexicanos, Sueños en tránsito: crónicas de migración, Vozes dos porões. Seu romance A Rainha do Cine Roma foi finalista do prêmio Leya (Portugal), menção honrosa no Prêmio SESC (Brasil) e ganhador do Prêmio Lipp 2012 (México/França) pela versão em espanhol. É tradutor do Manual prático do ódio, de Ferréz, entre outros livros, e editor de Metamorfosis, coletânea de escritores de Tepito e outros “bairros bravos” da cidade do México. Atualmente reside em Chiapas, México.
Autor - Alejandro Reyes nasceu na cidade do México, é escritor, jornalista e tradutor. Viveu nos Estados Unidos, na França e nove anos no Brasil, inclusive em Salvador. É mestre em Estudos Latino-Americanos e doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade da Califórnia em Berkeley. É ativista e membro do coletivo de mídia alternativa Rádio Zapatista. É autor de Vidas de Rua, Contos Mexicanos, Sueños en tránsito: crónicas de migración, Vozes dos porões. Seu romance A Rainha do Cine Roma foi finalista do prêmio Leya (Portugal), menção honrosa no Prêmio SESC (Brasil) e ganhador do Prêmio Lipp 2012 (México/França) pela versão em espanhol. É tradutor do Manual prático do ódio, de Ferréz, entre outros livros, e editor de Metamorfosis, coletânea de escritores de Tepito e outros “bairros bravos” da cidade do México. Atualmente reside em Chiapas, México.
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Lançamentos Vozes do Porão: Literatura Periférica/Marginal no Brasil
Quarta (04/09): Sarau Bem Black - Sankofa African Bar - Pelourinho – 19h30
Bate-papo com Alejandro Reyes (México) e GOG (Brasília) e participação de Berimba de Jesus (São Paulo). Pocket-show com GOG. Entrada gratuita.
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Quinta (05/09): UCSal / Lapa – 9h às 12h
Mesa redonda: Literatura e Divergência: Literatura Periférica, Marginal e Divergente
Com: Alejandro Reyes, Nelson Maca, GOG e Berimba de Jesus.
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Quinta (05/09): UFBA / Auditório 1 - PAF VI – 19h
Mesa redonda: Discutindo a divergência na Literatura Brasileira
Com: Nelson Maca, Alejandro Reyes, GOG e Henrique Freitas; organização: Jorge Augusto
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Sexta- (06/09): MAC/Feira de Santana – 19h
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Sexta- (06/09): MAC/Feira de Santana – 19h
Chá de Conversa e Som / Cultura , Resistência e Movimentos Autônomos: Literatura-Marginal- Periférica-Divergente, Zapatismo e Mídia Independente
Bate-papo com Alejandro Reyes; Mediadores: Nelson Maca e Bel Pires
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Domingo (7/09): MUSAS –Museu de Street Salvador/Gamboa de Baixo – Contorno
Hip Hop, Literatura e Autonomia Artística e Política
Com: Alejandro Reyes, Nelson Maca, GOG e Ativistas do Hip Hop-BA .Mediação: Julio Costa
Domingo (7/09): MUSAS –Museu de Street Salvador/Gamboa de Baixo – Contorno
Hip Hop, Literatura e Autonomia Artística e Política
Com: Alejandro Reyes, Nelson Maca, GOG e Ativistas do Hip Hop-BA .Mediação: Julio Costa
27 de agosto de 2013
23 de agosto de 2013
Vozes dos Porões – uma conversa com Alejandro Reyes
Por Mário Augusto Medeiros da Silva
IFCH/Unicamp – 20/08/2013.
Lançamento do livro.
Mediação e organização: Taniele Rui.
Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal do Brasil é um livro que me foi recomendado à leitura, ainda na forma de tese de doutoramento de seu autor, em Berkeley, meses atrás, por um amigo em comum – Allan da Rosa. Segundo Allan, nossos trabalhos conversavam, nossas ideias se cruzavam, tanto em função do tema comum de estudo, como de postura face a esse tema. Trocavam ideias, portanto, sem se conhecer. E numa dessas felizes circunstâncias da vida, recebi, um mês atrás, o convite de Taniele Rui, para estar aqui e conversar sobre Vozes, agora em livro, pela editora Aeroplano, na coleção Tramas Urbanas.
De saída, afirmo que o adjetivo feliz vem a calhar para a leitura que fiz do livro de Alejandro, de um estado em que me encontrei ao finalizá-lo. A quantidade de inquietações e questões que ele apresenta em seu trabalho, sobre o tema e sua análise, bem como à sua postura face a este tema – o debate sobre a periferia e sua enunciação política e cultural – é grande o bastante para que minha leitura, seja por si só, insuficiente e tão somente uma possibilidade. Vocês dirão: mas isso se dá em qualquer livro. Estão corretos. Mas, creio eu, isto se dá especialmente quando o livro é bom.
Bom em que sentido? A começar por Vozes se inserir numa trajetória construída ao longo dos últimos anos de estudos, notadamente das Ciências Sociais, que tentam, não sem dificuldades, analisar e demonstrar o que pode haver de novo e importante na discussão sobre a Periferia no Brasil, colocada pelo ângulo da literatura e da produção cultural.
Sua inserção se dá de uma mirada ainda mais estrangeira que a dos pesquisadores universitários brasileiros voltados para o assunto (poucos são moradores de bairros periféricos). E é aí que, em minha opinião, o trabalho traz sua primeira boa contribuição: Se quase todos concordam que a periferia não é apenas uma questão espacial e geográfica, Alejandro nos demonstra que, enquanto ideia, a periferia ultrapassa também os limites nacionais. Neste sentido, o que ocorre em El Sótano de los Olvidados, no México (de onde ele retira parte do título seu trabalho) tem muito a ver com as noites poéticas de um bar da periferia do Capão Redondo (para lembrar aqui do trabalho de Érica Peçanha); as questões que envolvem os ativistas políticos e culturais são questões globais, representando, em diferentes partes do mundo, lutas sociais contra as formas e visões de mundo capitalistas, por si excludentes e destruidoras, historicamente.
Por em situação global um assunto visto geralmente como local não significa que o autor ignore as especificidades do tema no Brasil. Pelo contrário: Alejandro, assim como outros autores, busca conectar a Literatura Marginal ou Periférica (batizada assim no final dos anos 1990, começo do século XXI quando o escritor Ferréz lançou Capão Pecado e organizou autores em antologias em torno daquela ideia), com os diferentes aspectos da história social, política e cultural brasileira que, progressivamente coadunados, assumiram a forma das periferias urbanas e a imposição brutal de modos de vida destruidores, de cima para baixo, a seus moradores.
Nunca é demais lembrar alguns pontos dessa História: a formação social, a colonização e o genocídio indígena, a escravização negra e uma Abolição incompleta; a posição historicamente dependente e – não se esqueçam – periférica de nossas elites face às nações ibéricas, igualmente periféricas e dependentes; a aceleração do capitalismo e sua dinâmica destruidora, promovendo uma modernidade traidora de suas promessas (liberdade, igualdade, fraternidade, emancipação), revolução industrial acelerada, migrações forçadas do rural ao urbano, do norte/nordeste para o Sul Maravilha, metropolização precária.
Alejandro não nos deixa esquecer isto; porém, nos faz lembrar, por vezes a contragosto, que somos também parte inventada da formação latinoamericana. E que, apesar de termos nos tornado independentes em 1822 – antes das lutas anticoloniais asiáticas e africanas do século XX, mas atrasados em relação a nossos vizinhos imediatos – precisamos ainda descolonizar boa parte de nosso pensamento social, político e cultural para entender que fazemos parte de e somos ressonantes a contextos tão aproximáveis como Oaxaca, Chiapas, Quito, Caracas, Cidade do México, Tepito, Buenos Aires, Tibete, Luanda, Maputo, Délhi etc.: somos parte de uma longa história de exploração capitalista. Mas também de luta social insurgente, nos termos dos autores a que recorre, muitos deles marxistas e pós coloniais estadunidenses, indianos, mexicanos, franceses e pesquisadores brasileiros, com destaque para, entre outros, Mike Davis, José Rabasa e Gayatry Spivak.
Não posso deixar de lembrar, neste ponto, que foi Roberto Schwarz quem escreveu, em As ideias fora de lugar, sobre as condições sociais de produção do escritor no Brasil – um país periférico do capitalismo do século XIX, produtor de Machado de Assis – demonstrando assim que, sempre imprevisível, existe a História. E que também nosso romancista tem que se colocar em compasso com o tic-tac do mundo, lidando com as questões da história mundial para formar sua composição literária. Válida para análise acerca de Machado, acredito que se deva seguir as mesmas sendas para discussão da Literatura Periférica. E é o que Alejandro faz, a meu ver, com competência.
A Literatura Periférica Brasileira é um desses imprevisíveis históricos. Surgida em meio ao desmonte neoliberal e pós ditatorial dos anos 1990, nas condições inóspitas de bairros sempre associados ao vazio, à violência e à pobreza, no senso comum, foi capaz de pautar, coletivamente, questões contemporâneas do Brasil. Obras como Capão Pecado, Manual Prático do Ódio, Da Cabula, O Trem, Suburbano Convicto, etc.; Saraus, como os da Cooperifa, Elo da Corrente, Binho, entre outros, promovem uma ressignificação de sentidos e de visões de mundo da e para a periferia, dos e para os periféricos. E para a sociedade circundante, que tendo de estar atenta aos fatos em ação, tem que se repensar. Por outro lado, as ações coletivas empreendidas por aqueles escritores não se restringem aos seus cenários imediatos: para além de suas viagens pelo Brasil, também promovem intercâmbio de ideias e ações com ativistas e escritores internacionais: vale lembrar as viagens, em diferentes momentos, de escritores como Ferréz, Sergio Vaz, Allan da Rosa, Rodrigo Ciríaco para Argentina, Paris, Berlim, Cidade do México, Maputo, Luanda e suas periferias.
Também vale lembrar que, não poucas vezes, essas viagens são mediadas por pesquisadores daqueles países, atentos ao tic-tac do mundo, traduzindo suas obras, apresentando-os a esses novos públicos, criando eventos culturais e políticos.
Além de, na Parte I de seu livro, apresentar algumas dessas questões, de maneira interessante, e debatê-las em perspectiva histórica, Alejandro confere também especial atenção a quatro tópicos importantes na discussão sobre a ideia de Literatura Periférica, na parte II: os usos da Memória Social como arma política; o emprego da Língua, na tensão entre oralidade e a gramática, que encerra uma discussão sobre o poder; o escritor, o intelectual, o ativista político cultural dessa Literatura que aparece sob a figura do Mediador entre diferentes mundos; e, por fim, o debate sobre as Formas da Violência e os sentidos que ela assume na composição literária periférica. Acredito que esta segunda parte de seu livro é também uma boa contribuição ao debate e que nos propõe questões.
No que tange à Literatura Periférica, os usos políticos da memória coletiva cumprem diferentes funções, seja de conectá-la a formas estéticas ou elementos históricos anteriores, ou, ainda, conferir-lhe identidade histórica e comunitária: a lembrança de como os periféricos foram parar na periferia, além de criar funcionar como um testemunho de identidade, tem o papel de demarcar a diferença e o inimigo mas, também, de criar uma relação afetiva com a perifa, a quebrada, as vielas, os caminhos tortos e certos do mundaréu. Neste sentido, contra a constante visão da precariedade tem-se a construção sísifica de uma contraimagem. Mas como nos lembra Alejandro, pensando com Albert Camus, acerca do mito, talvez possa se imaginar que Sísifo tenha sido feliz e este trabalho criativo não seja inglório ou em vão.
E, ao que parece, segundo sua leitura, não é. Seu debate sobre a questão dos usos da Língua é um ponto alto do livro. Aqui, o autor extrapola o tema da Literatura Periférica Brasileira para colocá-la em situação com a história da colonização. O controle do uso da língua é uma forma de dominação de um grupo sobre outro. E sua normatização entre o que é um absolutamente certo e um absolutamente errado constituem-se numa gramática do poder da dominação. Ora, as primeiras críticas que os escritores periféricos sempre recebem é a de que escrevam errado e cometem assassinatos em seus idiomas pátrios. E, de outro lado, os pesquisadores e interessados que os tentam estudar e os respeitar, são acusados de legitimar a ignorância, dignificar o erro. Ou, quando há um pouco mais de civilidade na discussão, estudar uma literatura menor (escapando ao sentido conferido a esta expressão por Gilles Deleuze e Félix Guattari) ou uma literatura em sentido lato, sem o L maiúsculo, um relato, um documento social.
Alejandro debate essas questões e as enfrenta, a meu ver, com muita propriedade, da de quem, além de pesquisador, também é um escritor e ativista político cultural. E antes que este tópico termine (será que termina algum dia?) nos demonstra que, nos usos da oralidade, do popular e da linguagem ao rés do chão, do trabalho e do suor, tem-se a construção de um mundo, em emancipação. O escritor periférico – mas não apenas ele, no Brasil, ou agora. Vale lembrar Antonio Gramsci e suas discussões sobre filosofia, senso comum e bom senso – os ativistas, os moradores das periferias, nesse embate quotidiano, têm a possibilidade de criar os caminhos da sua liberdade e autolegitimação. É muito interessante a análise que faz, neste ponto, da personagem Filomena Da Cabula, da peça homônima e premiada de Allan da Rosa.
Alejandro nos lembra também, mas não com este clichê que empregarei, que o intelectual periférico é um sujeito entre dois mundos. E, neste caso, padece do drama de ser dois, que é o de procurar criar interlocução e inteligibilidade entre as duas margens do rio, correndo o risco de não ser compreendido ou de trair sua mensagem. Em grande medida este é o drama de todo intelectual insurgente, subalternizado e que busca a emancipação plena, inclusive das armadilhas identitárias que, paradoxalmente, lhe mantém na condição subalterna. Restritamente, estou pensando na histórica discussão de e sobre intelectuais negros ou africanos como bell hooks, Cornel West, Frantz Fanon, Chinua Achebe, Cheikh Hamidou Kane, Ousmane Sembène, Abdias do Nascimento, Florestan Fernandes etc. Os dramas da mediação colocam ambiguidades e ambivalências constantes aos intelectuais insurgentes, que partem do “o quê”, “para quem”, “por quê”, “por quem” se escreve até os limites do diálogo, inclusive com seu antagonista histórico: “o sistema”, “a mídia”, “a elite”, “o centro”, “a colônia”, “os brancos”, “o capitalismo”.
E Alejandro ainda enfrenta a espinhosa questão das formas da violência. Da espetacularização anestesiada e tornada comum à sua historicidade e legitimidade, o autor nos propõe observar a sociedade brasileira em que, uma de suas mediações fundantes – e talvez tão constante quanto o patriarcalismo e o favor – seja a violência simbólica, das relações sociais, internalizadas e reproduzidas quotidianamente. Enfrenta e escapa, assim, ao debate, muitas vezes judicial, pouco analítico ou fecundo, se a literatura periférica faz ou não apologias da violência.
Numa das passagens mais interessantes do livro, ao debater esteticamente o assunto, o autor nos mostra como em pouco menos de 50 anos, da caça de um gato num episódio do filme Cinco Vezes Favela (1962) e a angústia de um menino; para, de outro lado, o extermínio de um outro felino por outro garoto no livro Cidade de Deus (1997), pode-se observar uma alteração da sensibilidade social para com o tema da violência impressionante. Da mesma forma que uma sociedade que legitima um organismo de estado (BOPE – RJ)cujo símbolo é uma faca em caveira e ri com as representações de tortura e assassinato desse organismo num filme faz pensar quem faz apologia ao quê.
Para finalizar, gostaria de voltar ao tema da mediação e ampliar um pouco a figura do mediador, extrapolando a análise feita sobre os escritores e intelectuais periféricos, para pensar junto o pesquisador e analista desses temas e seus protagonistas. Alejandro desde o início do trabalho não tem problema algum em se colocar em primeira pessoa no texto, empregando a língua de maneira rica e pouco usual nas teses e livros acadêmicos, que, por vezes, o colocam em cena, parceiro e aliado dos escritores, ativistas e intelectuais periféricos que analisa. Não se trata de procedimento novo. Impossível não lembrar da criadora da Coleção Tramas Urbanas, Heloísa Buarque de Hollanda, que com sua tese/livro Impressões de Viagem, sobre a literatura marginal dos anos 1970, fez o mesmo, por exemplo.
Mas aqui me fez pensar o papel do mediador/pesquisador, dos sujeitos que têm feito, nos últimos anos, trabalhos de orientação, iniciação científica, mestrado ou doutorado sobre esses temas ou correlatos. Muitas vezes, também no texto do Alejandro, existe a preocupação de, apesar de solidário, não querer ser normativo, indicar caminhos de como o mundo poderia ser. Mas essa vontade escapa ao controle e ao rigor do autor, porque, evidentemente, o mundo tal como ele é, especialmente depois de ter sido estudado, no mínimo, não é justo para pelo menos 90% da população mundial. É o que nos demonstra o autor na sua terceira parte, a (In)conlusão. Temos um sujeito histórico que se corporificou neste início de século, o periférico, que se encontra numa circunstância de crise capitalista e da produção de excedente humano que não será reincorporado, não é um exército industrial de reserva. É um algo novo, que desafia a História e que se tem que repensar e ser ressignificado, para si e pelos pesquisadores, para se estar à altura de suas
questões.
Se não adianta criar uma obra periférica sem a ressignificação crítica da visão de mundo que produziu a periferia, também não adianta muito estudar o assunto de maneira asséptica. O mediador/pesquisador acadêmico padece igualmente daquele drama de ser dois. Sinceramente não sei dizer se angústia pode ser pensado enquanto conceito próprio às Ciências Sociais. Mas este é um sentimento que perpassa as linhas de Vozes dos Porões e doutros trabalhos que tratam do tema. E também dos escritores e intelectuais subalternizados, insurgentes, de modo amplo. E que bom: isto instiga a pensar e procurar as formas de ação para ressignificação do mundo, um desafio que se encontra ao final deste livro de Alejandro Reyes, cuja leitura imediata recomendo.
IFCH/Unicamp – 20/08/2013.
Lançamento do livro.
Mediação e organização: Taniele Rui.
Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal do Brasil é um livro que me foi recomendado à leitura, ainda na forma de tese de doutoramento de seu autor, em Berkeley, meses atrás, por um amigo em comum – Allan da Rosa. Segundo Allan, nossos trabalhos conversavam, nossas ideias se cruzavam, tanto em função do tema comum de estudo, como de postura face a esse tema. Trocavam ideias, portanto, sem se conhecer. E numa dessas felizes circunstâncias da vida, recebi, um mês atrás, o convite de Taniele Rui, para estar aqui e conversar sobre Vozes, agora em livro, pela editora Aeroplano, na coleção Tramas Urbanas.
De saída, afirmo que o adjetivo feliz vem a calhar para a leitura que fiz do livro de Alejandro, de um estado em que me encontrei ao finalizá-lo. A quantidade de inquietações e questões que ele apresenta em seu trabalho, sobre o tema e sua análise, bem como à sua postura face a este tema – o debate sobre a periferia e sua enunciação política e cultural – é grande o bastante para que minha leitura, seja por si só, insuficiente e tão somente uma possibilidade. Vocês dirão: mas isso se dá em qualquer livro. Estão corretos. Mas, creio eu, isto se dá especialmente quando o livro é bom.
Bom em que sentido? A começar por Vozes se inserir numa trajetória construída ao longo dos últimos anos de estudos, notadamente das Ciências Sociais, que tentam, não sem dificuldades, analisar e demonstrar o que pode haver de novo e importante na discussão sobre a Periferia no Brasil, colocada pelo ângulo da literatura e da produção cultural.
Sua inserção se dá de uma mirada ainda mais estrangeira que a dos pesquisadores universitários brasileiros voltados para o assunto (poucos são moradores de bairros periféricos). E é aí que, em minha opinião, o trabalho traz sua primeira boa contribuição: Se quase todos concordam que a periferia não é apenas uma questão espacial e geográfica, Alejandro nos demonstra que, enquanto ideia, a periferia ultrapassa também os limites nacionais. Neste sentido, o que ocorre em El Sótano de los Olvidados, no México (de onde ele retira parte do título seu trabalho) tem muito a ver com as noites poéticas de um bar da periferia do Capão Redondo (para lembrar aqui do trabalho de Érica Peçanha); as questões que envolvem os ativistas políticos e culturais são questões globais, representando, em diferentes partes do mundo, lutas sociais contra as formas e visões de mundo capitalistas, por si excludentes e destruidoras, historicamente.
Por em situação global um assunto visto geralmente como local não significa que o autor ignore as especificidades do tema no Brasil. Pelo contrário: Alejandro, assim como outros autores, busca conectar a Literatura Marginal ou Periférica (batizada assim no final dos anos 1990, começo do século XXI quando o escritor Ferréz lançou Capão Pecado e organizou autores em antologias em torno daquela ideia), com os diferentes aspectos da história social, política e cultural brasileira que, progressivamente coadunados, assumiram a forma das periferias urbanas e a imposição brutal de modos de vida destruidores, de cima para baixo, a seus moradores.
Nunca é demais lembrar alguns pontos dessa História: a formação social, a colonização e o genocídio indígena, a escravização negra e uma Abolição incompleta; a posição historicamente dependente e – não se esqueçam – periférica de nossas elites face às nações ibéricas, igualmente periféricas e dependentes; a aceleração do capitalismo e sua dinâmica destruidora, promovendo uma modernidade traidora de suas promessas (liberdade, igualdade, fraternidade, emancipação), revolução industrial acelerada, migrações forçadas do rural ao urbano, do norte/nordeste para o Sul Maravilha, metropolização precária.
Alejandro não nos deixa esquecer isto; porém, nos faz lembrar, por vezes a contragosto, que somos também parte inventada da formação latinoamericana. E que, apesar de termos nos tornado independentes em 1822 – antes das lutas anticoloniais asiáticas e africanas do século XX, mas atrasados em relação a nossos vizinhos imediatos – precisamos ainda descolonizar boa parte de nosso pensamento social, político e cultural para entender que fazemos parte de e somos ressonantes a contextos tão aproximáveis como Oaxaca, Chiapas, Quito, Caracas, Cidade do México, Tepito, Buenos Aires, Tibete, Luanda, Maputo, Délhi etc.: somos parte de uma longa história de exploração capitalista. Mas também de luta social insurgente, nos termos dos autores a que recorre, muitos deles marxistas e pós coloniais estadunidenses, indianos, mexicanos, franceses e pesquisadores brasileiros, com destaque para, entre outros, Mike Davis, José Rabasa e Gayatry Spivak.
Não posso deixar de lembrar, neste ponto, que foi Roberto Schwarz quem escreveu, em As ideias fora de lugar, sobre as condições sociais de produção do escritor no Brasil – um país periférico do capitalismo do século XIX, produtor de Machado de Assis – demonstrando assim que, sempre imprevisível, existe a História. E que também nosso romancista tem que se colocar em compasso com o tic-tac do mundo, lidando com as questões da história mundial para formar sua composição literária. Válida para análise acerca de Machado, acredito que se deva seguir as mesmas sendas para discussão da Literatura Periférica. E é o que Alejandro faz, a meu ver, com competência.
A Literatura Periférica Brasileira é um desses imprevisíveis históricos. Surgida em meio ao desmonte neoliberal e pós ditatorial dos anos 1990, nas condições inóspitas de bairros sempre associados ao vazio, à violência e à pobreza, no senso comum, foi capaz de pautar, coletivamente, questões contemporâneas do Brasil. Obras como Capão Pecado, Manual Prático do Ódio, Da Cabula, O Trem, Suburbano Convicto, etc.; Saraus, como os da Cooperifa, Elo da Corrente, Binho, entre outros, promovem uma ressignificação de sentidos e de visões de mundo da e para a periferia, dos e para os periféricos. E para a sociedade circundante, que tendo de estar atenta aos fatos em ação, tem que se repensar. Por outro lado, as ações coletivas empreendidas por aqueles escritores não se restringem aos seus cenários imediatos: para além de suas viagens pelo Brasil, também promovem intercâmbio de ideias e ações com ativistas e escritores internacionais: vale lembrar as viagens, em diferentes momentos, de escritores como Ferréz, Sergio Vaz, Allan da Rosa, Rodrigo Ciríaco para Argentina, Paris, Berlim, Cidade do México, Maputo, Luanda e suas periferias.
Também vale lembrar que, não poucas vezes, essas viagens são mediadas por pesquisadores daqueles países, atentos ao tic-tac do mundo, traduzindo suas obras, apresentando-os a esses novos públicos, criando eventos culturais e políticos.
Além de, na Parte I de seu livro, apresentar algumas dessas questões, de maneira interessante, e debatê-las em perspectiva histórica, Alejandro confere também especial atenção a quatro tópicos importantes na discussão sobre a ideia de Literatura Periférica, na parte II: os usos da Memória Social como arma política; o emprego da Língua, na tensão entre oralidade e a gramática, que encerra uma discussão sobre o poder; o escritor, o intelectual, o ativista político cultural dessa Literatura que aparece sob a figura do Mediador entre diferentes mundos; e, por fim, o debate sobre as Formas da Violência e os sentidos que ela assume na composição literária periférica. Acredito que esta segunda parte de seu livro é também uma boa contribuição ao debate e que nos propõe questões.
No que tange à Literatura Periférica, os usos políticos da memória coletiva cumprem diferentes funções, seja de conectá-la a formas estéticas ou elementos históricos anteriores, ou, ainda, conferir-lhe identidade histórica e comunitária: a lembrança de como os periféricos foram parar na periferia, além de criar funcionar como um testemunho de identidade, tem o papel de demarcar a diferença e o inimigo mas, também, de criar uma relação afetiva com a perifa, a quebrada, as vielas, os caminhos tortos e certos do mundaréu. Neste sentido, contra a constante visão da precariedade tem-se a construção sísifica de uma contraimagem. Mas como nos lembra Alejandro, pensando com Albert Camus, acerca do mito, talvez possa se imaginar que Sísifo tenha sido feliz e este trabalho criativo não seja inglório ou em vão.
E, ao que parece, segundo sua leitura, não é. Seu debate sobre a questão dos usos da Língua é um ponto alto do livro. Aqui, o autor extrapola o tema da Literatura Periférica Brasileira para colocá-la em situação com a história da colonização. O controle do uso da língua é uma forma de dominação de um grupo sobre outro. E sua normatização entre o que é um absolutamente certo e um absolutamente errado constituem-se numa gramática do poder da dominação. Ora, as primeiras críticas que os escritores periféricos sempre recebem é a de que escrevam errado e cometem assassinatos em seus idiomas pátrios. E, de outro lado, os pesquisadores e interessados que os tentam estudar e os respeitar, são acusados de legitimar a ignorância, dignificar o erro. Ou, quando há um pouco mais de civilidade na discussão, estudar uma literatura menor (escapando ao sentido conferido a esta expressão por Gilles Deleuze e Félix Guattari) ou uma literatura em sentido lato, sem o L maiúsculo, um relato, um documento social.
Alejandro debate essas questões e as enfrenta, a meu ver, com muita propriedade, da de quem, além de pesquisador, também é um escritor e ativista político cultural. E antes que este tópico termine (será que termina algum dia?) nos demonstra que, nos usos da oralidade, do popular e da linguagem ao rés do chão, do trabalho e do suor, tem-se a construção de um mundo, em emancipação. O escritor periférico – mas não apenas ele, no Brasil, ou agora. Vale lembrar Antonio Gramsci e suas discussões sobre filosofia, senso comum e bom senso – os ativistas, os moradores das periferias, nesse embate quotidiano, têm a possibilidade de criar os caminhos da sua liberdade e autolegitimação. É muito interessante a análise que faz, neste ponto, da personagem Filomena Da Cabula, da peça homônima e premiada de Allan da Rosa.
Alejandro nos lembra também, mas não com este clichê que empregarei, que o intelectual periférico é um sujeito entre dois mundos. E, neste caso, padece do drama de ser dois, que é o de procurar criar interlocução e inteligibilidade entre as duas margens do rio, correndo o risco de não ser compreendido ou de trair sua mensagem. Em grande medida este é o drama de todo intelectual insurgente, subalternizado e que busca a emancipação plena, inclusive das armadilhas identitárias que, paradoxalmente, lhe mantém na condição subalterna. Restritamente, estou pensando na histórica discussão de e sobre intelectuais negros ou africanos como bell hooks, Cornel West, Frantz Fanon, Chinua Achebe, Cheikh Hamidou Kane, Ousmane Sembène, Abdias do Nascimento, Florestan Fernandes etc. Os dramas da mediação colocam ambiguidades e ambivalências constantes aos intelectuais insurgentes, que partem do “o quê”, “para quem”, “por quê”, “por quem” se escreve até os limites do diálogo, inclusive com seu antagonista histórico: “o sistema”, “a mídia”, “a elite”, “o centro”, “a colônia”, “os brancos”, “o capitalismo”.
E Alejandro ainda enfrenta a espinhosa questão das formas da violência. Da espetacularização anestesiada e tornada comum à sua historicidade e legitimidade, o autor nos propõe observar a sociedade brasileira em que, uma de suas mediações fundantes – e talvez tão constante quanto o patriarcalismo e o favor – seja a violência simbólica, das relações sociais, internalizadas e reproduzidas quotidianamente. Enfrenta e escapa, assim, ao debate, muitas vezes judicial, pouco analítico ou fecundo, se a literatura periférica faz ou não apologias da violência.
Numa das passagens mais interessantes do livro, ao debater esteticamente o assunto, o autor nos mostra como em pouco menos de 50 anos, da caça de um gato num episódio do filme Cinco Vezes Favela (1962) e a angústia de um menino; para, de outro lado, o extermínio de um outro felino por outro garoto no livro Cidade de Deus (1997), pode-se observar uma alteração da sensibilidade social para com o tema da violência impressionante. Da mesma forma que uma sociedade que legitima um organismo de estado (BOPE – RJ)cujo símbolo é uma faca em caveira e ri com as representações de tortura e assassinato desse organismo num filme faz pensar quem faz apologia ao quê.
Para finalizar, gostaria de voltar ao tema da mediação e ampliar um pouco a figura do mediador, extrapolando a análise feita sobre os escritores e intelectuais periféricos, para pensar junto o pesquisador e analista desses temas e seus protagonistas. Alejandro desde o início do trabalho não tem problema algum em se colocar em primeira pessoa no texto, empregando a língua de maneira rica e pouco usual nas teses e livros acadêmicos, que, por vezes, o colocam em cena, parceiro e aliado dos escritores, ativistas e intelectuais periféricos que analisa. Não se trata de procedimento novo. Impossível não lembrar da criadora da Coleção Tramas Urbanas, Heloísa Buarque de Hollanda, que com sua tese/livro Impressões de Viagem, sobre a literatura marginal dos anos 1970, fez o mesmo, por exemplo.
Mas aqui me fez pensar o papel do mediador/pesquisador, dos sujeitos que têm feito, nos últimos anos, trabalhos de orientação, iniciação científica, mestrado ou doutorado sobre esses temas ou correlatos. Muitas vezes, também no texto do Alejandro, existe a preocupação de, apesar de solidário, não querer ser normativo, indicar caminhos de como o mundo poderia ser. Mas essa vontade escapa ao controle e ao rigor do autor, porque, evidentemente, o mundo tal como ele é, especialmente depois de ter sido estudado, no mínimo, não é justo para pelo menos 90% da população mundial. É o que nos demonstra o autor na sua terceira parte, a (In)conlusão. Temos um sujeito histórico que se corporificou neste início de século, o periférico, que se encontra numa circunstância de crise capitalista e da produção de excedente humano que não será reincorporado, não é um exército industrial de reserva. É um algo novo, que desafia a História e que se tem que repensar e ser ressignificado, para si e pelos pesquisadores, para se estar à altura de suas
questões.
Se não adianta criar uma obra periférica sem a ressignificação crítica da visão de mundo que produziu a periferia, também não adianta muito estudar o assunto de maneira asséptica. O mediador/pesquisador acadêmico padece igualmente daquele drama de ser dois. Sinceramente não sei dizer se angústia pode ser pensado enquanto conceito próprio às Ciências Sociais. Mas este é um sentimento que perpassa as linhas de Vozes dos Porões e doutros trabalhos que tratam do tema. E também dos escritores e intelectuais subalternizados, insurgentes, de modo amplo. E que bom: isto instiga a pensar e procurar as formas de ação para ressignificação do mundo, um desafio que se encontra ao final deste livro de Alejandro Reyes, cuja leitura imediata recomendo.
19 de agosto de 2013
Estéticas das Periferias - Centro Cultural São Paulo - 29/08
http://www.centrocultural.sp.gov.br/programacao_literatura_poesia_2.html
O bate-papo marcará o lançamendo de dois livros. Alejandro Reyes lança Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal no Brasil e Allan da Rosa lança Pedagoginga.
Ambos os livros são editados pela Editora Aeroplano, do Rio de Janeiro,
dentro da Coleção Tramas Urbanas, coordenada pela professora Heloisa
Buarque de Hollanda, que estará mediando a mesa. O livro de Alejandro
Reyes, estudioso mexicano, é produto de seu doutorado recentemente
defendido na Universidade de Berkley, California, EUA. Já o livro de
Allan da Rosa é resultado de seu mestrado realizado na Faculdade de
Educação da USP.
Entrada franca - retirada de ingressos: na bilheteria, duas horas antes do início da conversa
Veja também: programação completa do Estéticas das Periferias no CCSP
Roda de conversa - Literatura periférica e marginal: estilos, sonhos e contradições
com: Alejandro Reyes, Allan da Rosa e Heloisa Buarque de Hollanda
Quinta-feira 29/08/2013 - 14h
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro 1000 - Paraíso São Paulo, SP 01504-000
Tel (11) 3397 4002
Sala Paulo Emilio Salles Gomes
Entrada franca - retirada de ingressos: na bilheteria, duas horas antes do início da conversa
Veja também: programação completa do Estéticas das Periferias no CCSP
Lançamento no Sarau Poesia na Brasa - 24/08/2013
No próximo encontro
do Sarau Poesia na Brasa, dia 24/08, vamos dedicar nossa atenção, pensamentos, sorrisos
e questionamento para entrar em contato com a obra de Alejandro Reyes “Vozes dos Porões – A Literatura
Periférica/ Marginal do Brasil”.
Nesse dia teremos o
prazer de receber Alejandro em nosso
terreiro, para uma prosa sobre seu trabalho e troca de saberes.
Convidamos tod@s para
esse momento de aprendizado coletivo e aprofundamento das reflexões sobre nossas
praticas cotidianas.
Sarau
Poesia na Brasa - Bar do Carlita
Rua
Professor Viveiros Raposo, 534
Dia
24/08/2013
Às
20h30
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