Marcadores

Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens

6 de janeiro de 2015

Resenha: Alejandro Reyes – Vozes dos porões: a literatura periférica/marginal do Brasil

Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Mário Augusto Medeiros da Silva
Doutor em sociologia e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil. E-mail: mariomed@unicamp.br

Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013

Vozes dos porões: a literatura periférica/marginal do Brasil é a versão modificada da tese de doutoramento do autor (apresentada na Universidade de Berkeley em 2011), que explicita quantidade significativa de inquietações e questões sobre o tema, um dos assuntos mais importantes da história literária e social brasileira contemporânea – o debate sobre a periferia, os sujeitos sociais periféricos e sua enunciação política e cultural.

O livro se insere numa trajetória de estudos construída ao longo da última década, notadamente das ciências sociais, que tentam, não sem dificuldades, analisar e demonstrar o que pode haver de novo e importante na discussão sobre a periferia no Brasil, colocada pelo ângulo da literatura e da produção cultural por intelectuais orgânicos.

O fato de sua mirada ser ainda mais estrangeira que a dos pesquisadores universitários brasileiros voltados para o assunto apresenta sua primeira boa contribuição: se quase todos concordam que a periferia não é apenas uma questão espacial e geográfica, Reyes demonstra que, enquanto ideia, a periferia ultrapassa também os limites nacionais. Nesse sentido, o que ocorre em El sótano de los olvidados, no México (de onde ele retira parte do título seu trabalho) tem muito a ver com as noites poéticas de um bar da periferia do Capão Redondo (Nascimento, 2012); as questões que envolvem os ativistas políticos e culturais são questões globais, na sua interpretação; representam, em diferentes partes do mundo, lutas sociais contra as formas e visões de mundo capitalistas, por si excludentes e destruidoras, historicamente.

16 de outubro de 2013

Literatura das margens

Publicado em: O Povo - Jornal de Hoje (Fortaleza)

Mexicano analisa a literatura feita por moradores da periferia brasileira. Em Vozes dos Porões, o escritor Alejandro Reyes investiga como a memória, a violência e a linguagem são fatores que distinguem essa produção
 
 
Alan Santiago alan@opovo.com.br
 
Moradores da periferia têm se reunido, desde o início dos anos 2000, para uma atividade perigosa e subversiva: saraus recitando poesia, discutindo a própria realidade, refletindo sobre o mundo – geralmente em bares. Esse movimento literário, que explodiu em São Paulo e ganhou outras cidades do País, é o foco de Vozes dos Porões, assinado pelo mexicano Alejandro Reyes.

As 271 páginas do estudo são fruto de um doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley, quando Reyes se propôs o cruzamento entre dois de seus olhares: o do escritor e o do ativista.

Ele é autor do romance A Rainha do Cine Roma, enxergando a vida de crianças em situação de rua, e também entusiasta das iniciativas de autonomia nas comunidades zapatistas mexicanas, que têm escolas e postos de saúde próprios.

Na pesquisa, Reyes tenta entender o que esses saraus significam do ponto de vista literário e político. Segundo ele, trata-se de uma literatura com grande ênfase autorrepresentativa, ao refletir o dia a dia das populações periféricas que a produzem.

Além disso, está vinculada também a iniciativas de ação política – como economia solidária e movimentos populares. Os saraus, um fenômeno que Reyes reputa como global, têm cada vez mais se desdobrado em oficinas ou até mesmo em cursos de longa duração com uma pedagogia, às vezes, “baseada no imaginário simbólico afro-brasileiro”.

Tudo isso criado por autores e público de periferias, favelas e prisões. “Mas essas características não são estreitas. O (escritor pernambucano) Marcelino Feire é considerado parceiro, embora seja de classe média”, afirma.

Violência
Inspirados pelo Cooperifa, criado 2001, outros tantos saraus surgiram – no Rio, em Salvador, em Brasília, Porto Alegre. E acabaram fazendo emergir um punhado de escritores que convertem os sentimentos das ruas em literatura.

Allan da Rosa, Paulo Lins, Nelson Maca, Ferréz e Sérgio Vaz, por exemplo, ganharam notoriedade nacional. Hoje participam de festas literárias pelo Brasil e vão também a universidades estrangeiras, carregando o modus vivendi dos bairros considerados “marginais”.

“(...) não batemos na porta para alguém abrir, nós arrombamos a porta e entramos”, resume Ferréz em Terrorismo Literário, manifesto impresso numa coletânea com talentos dessa safra. Três números especiais, em 2001, 2002 e 2004, da revista Caros Amigos ajudaram a visibilizar essa produção, ao publicar 80 textos de 48 autores.

Na avaliação de Reyes, há “um processo próprio de como essas portas foram quebradas, entrando em espaços que antes não eram permitidos. Quando os escritores começam a viajar, isso vai ampliando”.

Essa nova literatura “marginal” – que se apropriara e remodela termo já utilizado nos anos 1970 – é um produto da década de 1990, segundo Reyes. O acréscimo brutal da violência naquele decênio gerou “uma cultura de extermínio devido ao abismo social que cresce depois do fim da ditadura”.

Massacres como do Carandiru ou da Candelária acontecem, respectivamente, em 1992 e 1993. “Isso dá origem, anos depois, a uma série de escritos que são o embrião do que viria a ser a literatura carcerária. A mesma coisa na literatura da periferia”.

Tão próxima das populações periféricas que convivem com a truculência do tráfico e da polícia, a violência aparece também de maneira sistêmica nesses autores. “Não apenas com a chacina, mas também num transporte público humilhante para eles”.

Afora a violência, ainda outros três aspectos que distinguem, para Reyes, essa produção são analisados no livro: a memória, a linguagem e a crise do mediador de classe média.

“Os escritores periféricos estão dominando a norma culta e subvertendo a lógica com a linguagem das ruas, que sempre foi excluída”, afirma. Ao mesmo passo, a memória serve para dar sentido a uma experiência mais individual dessas populações e é uma tentativa de se opor aos parâmetros da globalização.

Além disso, uma crise na mediação entre o Brasil da favela e o Brasil da classe média alta acirrou os ânimos dos dois lados. E a reação, nas comunidades periféricas, é o surgimento do hip-hop, que faz a figura do malandro, exaltado como síntese do País, passar ao papel de criminoso.

“Na crise do mediador, há um vácuo, que é preenchido pelo produtor cultural da periferia de outra forma. Não mais numa negociação, mas na visibilização do conflito. É uma mudança radical”.

Onde

ENTENDA A NOTÍCIA

A conversa com Alejandro Reyes aconteceu em Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, onde ele foi participar da 15ª Jornada Nacional de Literatura. Ele dividiu o palco com o poeta Sérgio Vaz e o rapper Emicida na mesa “A leitura das ruas”.

SERVIÇO

Vozes dos Porões
Alejandro Reys
Coleção Tramas Urbanas
Editora Aeroplano
271 páginas

18 de setembro de 2013

Literatura dos porões da sociedade marca território

Publicado por Periferia em Movimento em 18/09/201
Foto: Nathália Barbosa
Por Andressa Vilela
Descontraído e informal. Esse foi o clima do evento que aconteceu na tarde de quinta-feira (29), no Centro Cultural São Paulo. Estavam presentes Alejandro Reyes, autor mexicano de “Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal no Brasil”, e Allan da Rosa, que escreveu “Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem”. Ambos os títulos foram publicados pela Editora Aeroplano, dentro da Coleção Tramas Urbanas, coordenada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda, que mediou a mesa no início do encontro.

Heloisa abriu o debate pontuando que as duas obras são estudos profundos. Sobre Vozes dos Porões, a professora afirma que se trata do livro mais completo sobre literatura marginal, no qual o autor se debruçou sobre toda a história do tema, transmitindo uma identificação profunda para os leitores.

Pedagoginga, por sua vez, questiona o fazer educativo e apresenta uma nova proposta pedagógica, que envolve autonomia dos alunos e compromisso com a cultura afro-brasileira. De acordo com o autor, “é o sonho de alimentar o movimento de educação popular nas periferias de São Paulo”.

Segundo Reyes, o nome de seu livro surgiu a partir de uma experiência que vivenciou no México, onde conheceu o coletivo O Porão dos Esquecidos, que produz uma literatura semelhante à marginal brasileira, ou seja, que não tem grande espaço para divulgação. Juntos, pensaram que a melhor maneira de nomear tal produção seria “literatura dos porões”, dos porões da sociedade.  “É um trocadilho sobre o que acontece no México e o que acontece aqui”, explica o autor.

A seguir, o foco da conversa tornou-se o preconceito linguístico que está enraizado na sociedade brasileira. Conforme os debatedores, a literatura periférica trata de questões extremamente locais, reivindicando, assim, uma linguagem muito específica, que vai de encontro ao que a comunidade acadêmica considera culto e correto. Por isso é urgente que se criem pontes para conectar os dois extremos linguísticos da sociedade: o erudito e o popular.

Para Alejandro, a produção literária marginal surge como uma dessas pontes, que deve quebrar a cegueira e a surdez de instituições conservadoras que ainda resistem em considerar o discurso periférico como válido. Segundo Allan, a produção de algo diferente do que já existe está na necessidade de marcar um território. Entretanto, ele aponta que a padronização também é um risco que a produção da periferia corre, mas que “a quebrada é de um monte de jeito e tem um monte de tema possível”.

Sobre o papel da literatura na sociedade, Reyes acredita que ela tem a capacidade de quebrar conceitos, de ir o mais profundo possível no questionamento da existência humana.  “A literatura tem uma função pedagógica no sentindo de nos fazer enxergar coisas que de outro modo não enxergaríamos”, diz o autor. Ele explica que a literatura periférica não surge com o sentido de apontar respostas, mas sim de fazer o leitor identificar-se com o que lê. Trata-se da “sanha de fazer o leitor aparecer”, que, para Allan, é uma luta diária.

O último tema abordado no encontro foi o perfil da escrita literária dos mexicanos que vivem nos Estados Unidos. Segundo Reyes, a fronteira entre os dois países não existe no imaginário e na realidade humana dos imigrantes e isso é refletido na literatura. “Tem um hibridismo com a linguagem… Já que território tem a ver com a experiência e sensibilidade humana e nada a ver com fronteiras, mesmo que existam fisicamente”, pontua. O outro lado do assunto são os traumas que os imigrantes sofrem ao tentar entrar ilegalmente no país norte americano. Ambos os autores afirmam que conheceram de perto histórias difíceis, que apenas reforçam o apego ao país de origem.

6 de setembro de 2013

Quando certa literatura deixa as margens

Estéticas-das-Perifierias-074
Lançamento dos livros “Vozes dos Porões” e “Pedagoginga” simboliza a concretização, valorização e o aprofundamento de obras conhecidas — ainda — por poucos, fora das periferias

Por Andressa Vilela

Em tarde de quinta-feira (29), no Centro Cultural São Paulo, descontraída e informal, Alejandro Reyes, autor mexicano, lançava sua obra “Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal no Brasil” ao lado de Allan da Rosa, que escreveu “Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem”. Ambos os títulos foram publicados pela Editora Aeroplano, dentro da Coleção Tramas Urbanas, coordenada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda, que mediou a mesa no início do encontro.

Para ela, ambas “estudos profundos”. Vozes dos Porões, segundo ela, o livro mais completo sobre literatura marginal, no qual o autor se debruçou sobre toda a história do tema, transmitindo uma identificação profunda para os leitores. Pedagoginga, por sua vez, questiona o fazer educativo e apresenta uma nova proposta pedagógica, que envolve autonomia dos alunos e compromisso com a cultura afro-brasileira. De acordo com o autor, “é o sonho de alimentar o movimento de educação popular nas periferias de São Paulo”.

Ainda que original de outro país, Reyes diz ser semelhante o que acontece lá e cá, quanto à literatura marginal. Segundo ele, o nome do livro surgiu por causa de vivência em coletivo chamado “O Porão dos Esquecidos”. Juntos, pensaram que a melhor maneira de nomear tal produção seria “literatura dos porões”, dos porões da sociedade.  “É um trocadilho sobre o que acontece no México e o que acontece aqui”, explica o autor.

As diferenças e semelhanças foram ingredientes para uma rica troca sobre a arte das letras do povo. Primeiro, o assunto foi o preconceito linguístico, enraizado na sociedade brasileira. Conforme os debatedores, a literatura periférica trata de questões extremamente locais, reivindicando, assim, uma linguagem muito específica, que vai de encontro ao que a comunidade acadêmica considera culto e correto. Por isso é urgente que se criem pontes para conectar os dois extremos linguísticos da sociedade: o erudito e o popular.

Para Alejandro, a produção literária marginal surge como uma dessas pontes, que deve quebrar a cegueira e a surdez de instituições conservadoras que ainda resistem em considerar o discurso periférico como válido. Segundo Allan, a produção de algo diferente do que já existe está na necessidade de marcar um território. Entretanto, ele aponta que a padronização também é um risco que a produção da periferia corre, mas que “a quebrada é de um monte de jeito e tem um monte de tema possível”.

Sobre o papel da literatura na sociedade, Reyes acredita que ela tem a capacidade de quebrar conceitos, de ir o mais profundo possível no questionamento da existência humana.  “A literatura tem uma função pedagógica no sentindo de nos fazer enxergar coisas que de outro modo não enxergaríamos”, diz o autor. Ele explica que a literatura periférica não surge com o sentido de apontar respostas, mas sim de fazer o leitor identificar-se com o que lê. Trata-se da “sanha de fazer o leitor aparecer”, que, para Allan, é uma luta diária.

Num caso específico da criação literária de mexicanos que vivem nos Estados Unidos, por exemplo, a fronteira entre os dois países não existe no imaginário e na realidade humana dos imigrantes e isso é refletido na literatura, conta Reyes. “Tem um hibridismo com a linguagem… Já que território tem a ver com a experiência e sensibilidade humana e nada a ver com fronteiras, mesmo que existam fisicamente”, pontua. O outro lado do assunto são os traumas que os imigrantes sofrem ao tentar entrar ilegalmente no país norte americano. Ambos os autores afirmam que conheceram de perto histórias difíceis, que apenas reforçam o apego ao país de origem.
——————————-
Para ler a seleção Outras Palavras da Cobertura Colaborativa Estéticas das Periferias, clique aqui
Para ler todos os textos, clique aqui

23 de agosto de 2013

Vozes dos Porões – uma conversa com Alejandro Reyes

Por Mário Augusto Medeiros da Silva 
IFCH/Unicamp – 20/08/2013.
Lançamento do livro.
Mediação e organização: Taniele Rui.

Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal do Brasil é um livro que me foi recomendado à leitura, ainda na forma de tese de doutoramento de seu autor, em Berkeley, meses atrás, por um amigo em comum – Allan da Rosa. Segundo Allan, nossos trabalhos conversavam, nossas ideias se cruzavam, tanto em função do tema comum de estudo, como de postura face a esse tema. Trocavam ideias, portanto, sem se conhecer. E numa dessas felizes circunstâncias da vida, recebi, um mês atrás, o convite de Taniele Rui, para estar aqui e conversar sobre Vozes, agora em livro, pela editora Aeroplano, na coleção Tramas Urbanas.

De saída, afirmo que o adjetivo feliz vem a calhar para a leitura que fiz do livro de Alejandro, de um estado em que me encontrei ao finalizá-lo. A quantidade de inquietações e questões que ele apresenta em seu trabalho, sobre o tema e sua análise, bem como à sua postura face a este tema – o debate sobre a periferia e sua enunciação política e cultural – é grande o bastante para que minha leitura, seja por si só, insuficiente e tão somente uma possibilidade. Vocês dirão: mas isso se dá em qualquer livro. Estão corretos. Mas, creio eu, isto se dá especialmente quando o livro é bom.

Bom em que sentido? A começar por Vozes se inserir numa trajetória construída ao longo dos últimos anos de estudos, notadamente das Ciências Sociais, que tentam, não sem dificuldades, analisar e demonstrar o que pode haver de novo e importante na discussão sobre a Periferia no Brasil, colocada pelo ângulo da literatura e da produção cultural.

Sua inserção se dá de uma mirada ainda mais estrangeira que a dos pesquisadores universitários brasileiros voltados para o assunto (poucos são moradores de bairros periféricos). E é aí que, em minha opinião, o trabalho traz sua primeira boa contribuição: Se quase todos concordam que a periferia não é apenas uma questão espacial e geográfica, Alejandro nos demonstra que, enquanto ideia, a periferia ultrapassa também os limites nacionais. Neste sentido, o que ocorre em El Sótano de los Olvidados, no México (de onde ele retira parte do título seu trabalho) tem muito a ver com as noites poéticas de um bar da periferia do Capão Redondo (para lembrar aqui do trabalho de Érica Peçanha); as questões que envolvem os ativistas políticos e culturais são questões globais, representando, em diferentes partes do mundo, lutas sociais contra as formas e visões de mundo capitalistas, por si excludentes e destruidoras, historicamente.

Por em situação global um assunto visto geralmente como local não significa que o autor ignore as especificidades do tema no Brasil. Pelo contrário: Alejandro, assim como outros autores, busca conectar a Literatura Marginal ou Periférica (batizada assim no final dos anos 1990, começo do século XXI quando o escritor Ferréz lançou Capão Pecado e organizou autores em antologias em torno daquela ideia), com os diferentes aspectos da história social, política e cultural brasileira que, progressivamente coadunados, assumiram a forma das periferias urbanas e a imposição brutal de modos de vida destruidores, de cima para baixo, a seus moradores.

Nunca é demais lembrar alguns pontos dessa História: a formação social, a colonização e o genocídio indígena, a escravização negra e uma Abolição incompleta; a posição historicamente dependente e – não se esqueçam – periférica de nossas elites face às nações ibéricas, igualmente periféricas e dependentes; a aceleração do capitalismo e sua dinâmica destruidora, promovendo uma modernidade traidora de suas promessas (liberdade, igualdade, fraternidade, emancipação), revolução industrial acelerada, migrações forçadas do rural ao urbano, do norte/nordeste para o Sul Maravilha, metropolização precária.

Alejandro não nos deixa esquecer isto; porém, nos faz lembrar, por vezes a contragosto, que somos também parte inventada da formação latinoamericana. E que, apesar de termos nos tornado independentes em 1822 – antes das lutas anticoloniais asiáticas e africanas do século XX, mas atrasados em relação a nossos vizinhos imediatos – precisamos ainda descolonizar boa parte de nosso pensamento social, político e cultural para entender que fazemos parte de e somos ressonantes a contextos tão aproximáveis como Oaxaca, Chiapas, Quito, Caracas, Cidade do México, Tepito, Buenos Aires, Tibete, Luanda, Maputo, Délhi etc.: somos parte de uma longa história de exploração capitalista. Mas também de luta social insurgente, nos termos dos autores a que recorre, muitos deles marxistas e pós coloniais estadunidenses, indianos, mexicanos, franceses e pesquisadores brasileiros, com destaque para, entre outros, Mike Davis, José Rabasa e Gayatry Spivak.

Não posso deixar de lembrar, neste ponto, que foi Roberto Schwarz quem escreveu, em As ideias fora de lugar, sobre as condições sociais de produção do escritor no Brasil – um país periférico do capitalismo do século XIX, produtor de Machado de Assis – demonstrando assim que, sempre imprevisível, existe a História. E que também nosso romancista tem que se colocar em compasso com o tic-tac do mundo, lidando com as questões da história mundial para formar sua composição literária. Válida para análise acerca de Machado, acredito que se deva seguir as mesmas sendas para discussão da Literatura Periférica. E é o que Alejandro faz, a meu ver, com competência.

A Literatura Periférica Brasileira é um desses imprevisíveis históricos. Surgida em meio ao desmonte neoliberal e pós ditatorial dos anos 1990, nas condições inóspitas de bairros sempre associados ao vazio, à violência e à pobreza, no senso comum, foi capaz de pautar, coletivamente, questões contemporâneas do Brasil. Obras como Capão Pecado, Manual Prático do Ódio, Da Cabula, O Trem, Suburbano Convicto, etc.; Saraus, como os da Cooperifa, Elo da Corrente, Binho, entre outros, promovem uma ressignificação de sentidos e de visões de mundo da e para a periferia, dos e para os periféricos. E para a sociedade circundante, que tendo de estar atenta aos fatos em ação, tem que se repensar. Por outro lado, as ações coletivas empreendidas por aqueles escritores não se restringem aos seus cenários imediatos: para além de suas viagens pelo Brasil, também promovem intercâmbio de ideias e ações com ativistas e escritores internacionais: vale lembrar as viagens, em diferentes momentos, de escritores como Ferréz, Sergio Vaz, Allan da Rosa, Rodrigo Ciríaco para Argentina, Paris, Berlim, Cidade do México, Maputo, Luanda e suas periferias.

Também vale lembrar que, não poucas vezes, essas viagens são mediadas por pesquisadores daqueles países, atentos ao tic-tac do mundo, traduzindo suas obras, apresentando-os a esses novos públicos, criando eventos culturais e políticos.

Além de, na Parte I de seu livro, apresentar algumas dessas questões, de maneira interessante, e debatê-las em perspectiva histórica, Alejandro confere também especial atenção a quatro tópicos importantes na discussão sobre a ideia de Literatura Periférica, na parte II: os usos da Memória Social como arma política; o emprego da Língua, na tensão entre oralidade e a gramática, que encerra uma discussão sobre o poder; o escritor, o intelectual, o ativista político cultural dessa Literatura que aparece sob a figura do Mediador entre diferentes mundos; e, por fim, o debate sobre as Formas da Violência e os sentidos que ela assume na composição literária periférica. Acredito que esta segunda parte de seu livro é também uma boa contribuição ao debate e que nos propõe questões.

No que tange à Literatura Periférica, os usos políticos da memória coletiva cumprem diferentes funções, seja de conectá-la a formas estéticas ou elementos históricos anteriores, ou, ainda, conferir-lhe identidade histórica e comunitária: a lembrança de como os periféricos foram parar na periferia, além de criar funcionar como um testemunho de identidade, tem o papel de demarcar a diferença e o inimigo mas, também, de criar uma relação afetiva com a perifa, a quebrada, as vielas, os caminhos tortos e certos do mundaréu. Neste sentido, contra a constante visão da precariedade tem-se a construção sísifica de uma contraimagem. Mas como nos lembra Alejandro, pensando com Albert Camus, acerca do mito, talvez possa se imaginar que Sísifo tenha sido feliz e este trabalho criativo não seja inglório ou em vão.

E, ao que parece, segundo sua leitura, não é. Seu debate sobre a questão dos usos da Língua é um ponto alto do livro. Aqui, o autor extrapola o tema da Literatura Periférica Brasileira para colocá-la em situação com a história da colonização. O controle do uso da língua é uma forma de dominação de um grupo sobre outro. E sua normatização entre o que é um absolutamente certo e um absolutamente errado constituem-se numa gramática do poder da dominação. Ora, as primeiras críticas que os escritores periféricos sempre recebem é a de que escrevam errado e cometem assassinatos em seus idiomas pátrios. E, de outro lado, os pesquisadores e interessados que os tentam estudar e os respeitar, são acusados de legitimar a ignorância, dignificar o erro. Ou, quando há um pouco mais de civilidade na discussão, estudar uma literatura menor (escapando ao sentido conferido a esta expressão por Gilles Deleuze e Félix Guattari) ou uma literatura em sentido lato, sem o L maiúsculo, um relato, um documento social.

Alejandro debate essas questões e as enfrenta, a meu ver, com muita propriedade, da de quem, além de pesquisador, também é um escritor e ativista político cultural. E antes que este tópico termine (será que termina algum dia?) nos demonstra que, nos usos da oralidade, do popular e da linguagem ao rés do chão, do trabalho e do suor, tem-se a construção de um mundo, em emancipação. O escritor periférico – mas não apenas ele, no Brasil, ou agora. Vale lembrar Antonio Gramsci e suas discussões sobre filosofia, senso comum e bom senso – os ativistas, os moradores das periferias, nesse embate quotidiano, têm a possibilidade de criar os caminhos da sua liberdade e autolegitimação. É muito interessante a análise que faz, neste ponto, da personagem Filomena Da Cabula, da peça homônima e premiada de Allan da Rosa.

Alejandro nos lembra também, mas não com este clichê que empregarei, que o intelectual periférico é um sujeito entre dois mundos. E, neste caso, padece do drama de ser dois, que é o de procurar criar interlocução e inteligibilidade entre as duas margens do rio, correndo o risco de não ser compreendido ou de trair sua mensagem. Em grande medida este é o drama de todo intelectual insurgente, subalternizado e que busca a emancipação plena, inclusive das armadilhas identitárias que, paradoxalmente, lhe mantém na condição subalterna. Restritamente, estou pensando na histórica discussão de e sobre intelectuais negros ou africanos como bell hooks, Cornel West, Frantz Fanon, Chinua Achebe, Cheikh Hamidou Kane, Ousmane Sembène, Abdias do Nascimento, Florestan Fernandes etc. Os dramas da mediação colocam ambiguidades e ambivalências constantes aos intelectuais insurgentes, que partem do “o quê”, “para quem”, “por quê”, “por quem” se escreve até os limites do diálogo, inclusive com seu antagonista histórico: “o sistema”, “a mídia”, “a elite”, “o centro”, “a colônia”, “os brancos”, “o capitalismo”.

E Alejandro ainda enfrenta a espinhosa questão das formas da violência. Da espetacularização anestesiada e tornada comum à sua historicidade e legitimidade, o autor nos propõe observar a sociedade brasileira em que, uma de suas mediações fundantes – e talvez tão constante quanto o patriarcalismo e o favor – seja a violência simbólica, das relações sociais, internalizadas e reproduzidas quotidianamente. Enfrenta e escapa, assim, ao debate, muitas vezes judicial, pouco analítico ou fecundo, se a literatura periférica faz ou não apologias da violência.

Numa das passagens mais interessantes do livro, ao debater esteticamente o assunto, o autor nos mostra como em pouco menos de 50 anos, da caça de um gato num episódio do filme Cinco Vezes Favela (1962) e a angústia de um menino; para, de outro lado, o extermínio de um outro felino por outro garoto no livro Cidade de Deus (1997), pode-se observar uma alteração da sensibilidade social para com o tema da violência impressionante. Da mesma forma que uma sociedade que legitima um organismo de estado (BOPE – RJ)cujo símbolo é uma faca em caveira e ri com as representações de tortura e assassinato desse organismo num filme faz pensar quem faz apologia ao quê.

Para finalizar, gostaria de voltar ao tema da mediação e ampliar um pouco a figura do mediador, extrapolando a análise feita sobre os escritores e intelectuais periféricos, para pensar junto o pesquisador e analista desses temas e seus protagonistas. Alejandro desde o início do trabalho não tem problema algum em se colocar em primeira pessoa no texto, empregando a língua de maneira rica e pouco usual nas teses e livros acadêmicos, que, por vezes, o colocam em cena, parceiro e aliado dos escritores, ativistas e intelectuais periféricos que analisa. Não se trata de procedimento novo. Impossível não lembrar da criadora da Coleção Tramas Urbanas, Heloísa Buarque de Hollanda, que com sua tese/livro Impressões de Viagem, sobre a literatura marginal dos anos 1970, fez o mesmo, por exemplo.

Mas aqui me fez pensar o papel do mediador/pesquisador, dos sujeitos que têm feito, nos últimos anos, trabalhos de orientação, iniciação científica, mestrado ou doutorado sobre esses temas ou correlatos. Muitas vezes, também no texto do Alejandro, existe a preocupação de, apesar de solidário, não querer ser normativo, indicar caminhos de como o mundo poderia ser. Mas essa vontade escapa ao controle e ao rigor do autor, porque, evidentemente, o mundo tal como ele é, especialmente depois de ter sido estudado, no mínimo, não é justo para pelo menos 90% da população mundial. É o que nos demonstra o autor na sua terceira parte, a (In)conlusão. Temos um sujeito histórico que se corporificou neste início de século, o periférico, que se encontra numa circunstância de crise capitalista e da produção de excedente humano que não será reincorporado, não é um exército industrial de reserva. É um algo novo, que desafia a História e que se tem que repensar e ser ressignificado, para si e pelos pesquisadores, para se estar à altura de suas
questões.

Se não adianta criar uma obra periférica sem a ressignificação crítica da visão de mundo que produziu a periferia, também não adianta muito estudar o assunto de maneira asséptica. O mediador/pesquisador acadêmico padece igualmente daquele drama de ser dois. Sinceramente não sei dizer se angústia pode ser pensado enquanto conceito próprio às Ciências Sociais. Mas este é um sentimento que perpassa as linhas de Vozes dos Porões e doutros trabalhos que tratam do tema. E também dos escritores e intelectuais subalternizados, insurgentes, de modo amplo. E que bom: isto instiga a pensar e procurar as formas de ação para ressignificação do mundo, um desafio que se encontra ao final deste livro de Alejandro Reyes, cuja leitura imediata recomendo.